Editorial

Muitos equívocos são cometidos, atualmente, em nome de uma “prova científica”. A ciência, na sociedade contemporânea tomou ares de “dona da verdade”. Massificada pelos órgãos de mídia, a verificação de uma hipótese através de um estudo científico passou a ter um status inquestionável, e convivemos diariamente com frases do tipo: “comprovado cientificamente”.
A ciência é um dos meios pelos quais o homem tenta conhecer e explicar o seu mundo. E, dentre estes, é o mais jovem, mais recente. A ciência, nas bases como a conhecemos hoje, possui alguns séculos de existência; seus pensadores, que fundamentaram seus alicerces, viveram há três, quatro séculos.
Além da ciência, o homem também busca conhecer e explicar o mundo através da religião, filosofia, mito e arte. Todas estas são formas de conhecimento, tal qual a ciência, porém com milhares de anos de existência.
Talvez a época de incertezas da sociedade atual conduza as pessoas a buscarem portos seguros, procurarem certezas, conceitos bem definidos e imutáveis, comprovações. Com certeza, a ciência não é o meio de satisfazer esta intranqüilidade. A ciência só pode oferecer possibilidades, todas as verdades científicas são provisórias, e argumentar que algo é inquestionável porque já foi ‘provado cientificamente’ talvez seja uma das maiores contradições que assistimos todos os dias. Algo que não pode ser questionado constitui o que se chama “dogma”, um dogma é algo que, ou se aceita, ou não, e o pensamento científico não se fundamenta em dogmas. Na ciência, tudo é questionável, nada é imutável.
Isto toma ares de maior gravidade quando refletimos sobre o fato que todos nós, leitores desta revista, passamos ou estamos passando pela “academia”, um curso de graduação de nível superior. E é justamente a universidade o berço e o produtor da ciência, do conhecimento científico. Porém, se os cursos superiores se aperfeiçoaram em vários aspectos durante a sua história, precisamos reconhecer que hoje ele não consegue ensinar a seus alunos o que é ciência. Assistimos todos os dias o mau emprego dos critérios científicos, e o uso de uma autoridade falsa para seus argumentos.
Como professor universitário assumo, junto com os demais colegas, nossa falha em fazer com que os nossos alunos de fisioterapia entendam a ciência. Mas a existência de veículos de publicação científica é um excelente caminho para se cultivar uma “cultura científica”, e ajudar a mostrar de forma mais clara o que é, e o que não é, a ciência.
Nosso professor, Dr. Pierre Bisschop, sempre nos diz em nossas aulas: a área da saúde está repleta de contradições. Isto sempre foi assim, continua sendo, e creio que ainda será, por muito tempo. Não cabe a nós determos a verdade, mas construirmos e expormos nosso pensamento, escutar, analisar e discutir, o pensamento do outros, e tomarmos nossas conclusões provisórias para resolvermos nossos desafios cotidianos.
O fórum de discussão proporcionado por esta revista, através da veiculação de artigos, é um valioso instrumento para nossa evolução.

Prof. Márcio Ferreira de Moraes
Escola de Terapia Manual e Postural

Esta é uma publicação da Escola de Terapia Manual e Postural - 2002